Escadabstrata – José Damasceno

1º a 29 de setembro de 2018.
Galeria Millan & Anexo Millan.
Rua Fradique Coutinho, 1360/1416, Vila Madalena, São Paulo

obra que dá título à exposição é uma escada helicoidal que vai do chão ao teto do hall do Anexo Millan. A forma da espiral traduz o movimento ascensional a partir de um ponto inicial, etapas de um processo contínuo de desdobramento e de transformação. Só que em uma escala intermediária, menor do que a humana: miniatura gigante ou maquele multiescalar? A própria palavra que dá nome à mostra traz consigo “uma vocação de transcendência”, como diz o artista. Escadabstrata: uma palavra de encantamento? Talvez, mas certamente uma ideia-charada que traz consigo um possível estágio, nível ou grau a se transpor e ascender. Uma vez pronunciada essa palavra, seu som, sua música, nos transporta a outro lugar acima e além, àquele de uma hipótese ainda por se revelar.

Outro trabalho, este no andar superior da Galeria Millan, subverte o sentido de uma parede em branco: um clipe de luz neon (“Estou quase convencido de que nunca estou desperto”) preso no encontro de uma das paredes com o teto transforma aquela superfície em uma grande folha em branco. Já “Soundboard” faz de uma das paredes do Anexo uma grande mesa de som, com 50 “teclas” feitas de calcita flutuando desordenadas na enorme superfície plana e retangular. No mesmo ambiente, um grande pião de aço inoxidável (“Ferramenta jogo”) descansa em um canto, como se repousando após girar intensamente pela sala. A mostra apresenta, ainda, duas séries de gravuras (“Habitat Paragráfico” e “Estudos Paragráficos III”), um conjunto de 240 pinturas feitas com giz de cera derretido (“Monitor Crayon Líquido”), uma fotografia (“Jardim Infravermelho”) e a escultura composta por 90 peças de granito negro “Sombras Figuras”, entre outras obras.

O paradoxo trazido pela ideia de um mover estático tem sido uma das principais questões da obra de José Damasceno, uma vez que o artista sempre busca uma sensação rítmica, cinética ou progressiva em superfícies, acontecimentos ou matérias congeladas. Em seu trabalho, as coisas aparentes e concretas funcionam como propulsoras de um móbil imaginário, que estaria em constante deslocamento, mas que apenas mental ou conceitualmente “aparece”. Existiria então, em sua obra, uma mobilidade e um congelamento potenciais e oscilantes, pois que o enunciado nodal do trabalho problematiza, em paroxismo, a questão do movimento.