27 Ago - 14 Set2013
Mareando

Breves encontros acontecem na junção entre duas páginas prestes a serem viradas. Em Arpoador, um só lugar, certas séries fotográficas e estudos – desenhos, escritos, colagens – constituem um espaço afetivo e de experimentação. A praia, frequentada há décadas e, desde 1997, fotografada por Marcos Bonisson, se configura no encadeamento de situações efêmeras. Como aquela em que uma onda se levanta no mar opaco e vence o distante relevo das montanhas. Sua superfície rugosa, que força o limite do enquadramento, se contrapõe à geografia do corpo, no centro da página seguinte, onde a cavidade do ouvido tem a profundidade das cavernas. Bonisson nos convoca a uma interioridade impregnada na paisagem. As nuvens, as pedras, as curvas crespas do oceano, a superfície da areia que respira quando tocada pela maré do Arpoador são como corpos. E mesmo quando difusos, por vezes submersos, os corpos são como as pedras. Os altos e baixos das montanhas, lá onde deveria descansar o horizonte, são como a carne cortando a luminosidade de um dia que, devagar, chega ao fim. Não há limites entre o interior e o exterior.

A própria fotografia assume um caráter exploratório: demarca territórios, assinala fluxos de luz, descreve e analisa objetos, movimentos, atmosferas. A linha tanto estrutura como testa a paisagem. Fragmentos de corda em ziguezague riscam desvios em contraposição ao horizonte que, sabemos, tende a organizar a visão. Embora visível, o horizonte retilíneo é invenção da paisagem. Como o metro flexível de Duchamp, as cordas com que Bonisson desestabiliza a visão medem perímetros efêmeros e contornam poças que, sabemos, vão desaparecer.


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